Perícia do futuro passa por união entre conselhos, qualificação e diálogo com o judiciário
Painel realizado durante as comemorações dos 69 anos da APEJESP reuniu representantes de conselhos profissionais e entidades para discutir caminhos de valorização da atividade pericial
A valorização da atividade pericial no Estado de São Paulo depende, antes de tudo, da união entre conselhos de classe, entidades representativas e os próprios profissionais. Essa foi a mensagem que atravessou as falas de representantes de conselhos de classe entidades da classe pericial, reunidas no dia 3 de setembro, no painel realizado após a Sessão Solene dos 69 anos da Associação dos Peritos Judiciais do Estado de São Paulo (APEJESP), na sede do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo (CRCSP).
Ao longo do painel, os participantes discutiram os impactos das transformações tecnológicas, os desafios da qualificação profissional e a importância da atuação conjunta entre entidades, conselhos e Poder Judiciário para o fortalecimento da atividade pericial. "A pluralidade de experiências reunida no painel mostrou que os desafios da perícia são compartilhados por diferentes áreas do conhecimento. O diálogo e a cooperação entre as instituições são fundamentais para construirmos soluções e avançarmos juntos", destacou Suely durante a moderação.
Uma causa comum, acima das vaidades
A necessidade de maior integração entre os diferentes segmentos que atuam na perícia foi um dos pontos centrais do debate. Para os participantes, embora cada profissão tenha seus desafios específicos, a construção de uma atividade pericial mais forte passa pela capacidade de atuar de forma coordenada em pautas comuns.
Nesse contexto, o presidente da FEBRAPAM, José Aparecido Maion, destacou que encontros como esse representam uma oportunidade de aproximar entidades historicamente ligadas ao tema e criar uma agenda conjunta de fortalecimento da categoria. "Ninguém é melhor que ninguém. Independentemente da área de formação ou da entidade que representa, todos estamos trabalhando pelo mesmo objetivo: a valorização da perícia. Quando deixamos as vaidades de lado e entendemos que essa é uma causa comum, conseguimos construir soluções mais fortes, ampliar nossa representatividade e fortalecer toda a categoria."
A avaliação foi compartilhada por outros participantes do painel, que defenderam uma atuação cada vez mais integrada entre profissionais, associações e conselhos de classe. A ampliação do espaço da perícia entre diferentes categorias profissionais também esteve na pauta. Marcos Kalebbe Saraiva Maia Costa, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Perícia do Conselho Federal de Administração (CFA), explicou que uma das prioridades da entidade é ampliar o conhecimento sobre as possibilidades de atuação dos administradores e tecnólogos nesse mercado.
Segundo ele, existe um potencial ainda pouco explorado por muitos profissionais. "A perícia é um campo importantíssimo de atuação, com grande potencial de crescimento para administradores e tecnólogos. Ainda existe um desconhecimento significativo sobre essas oportunidades, e nosso papel é mostrar que esses profissionais possuem competências técnicas que podem contribuir de forma efetiva para a atividade pericial e para a qualidade das decisões judiciais."
A importância da qualificação também foi ressaltada pelo vice-presidente de Normas Técnicas do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), João Carlos Castilho Garcia, que destacou a relação direta entre excelência técnica e credibilidade da atividade pericial. "A perícia exerce um papel fundamental na formação do convencimento do magistrado e, por isso, exige profissionais cada vez mais preparados. Precisamos fortalecer a capacitação, estimular a atualização permanente e reforçar o compromisso com as normas técnicas, porque a qualidade do trabalho pericial impacta diretamente a confiança do Judiciário e da sociedade na nossa atividade."
Já o presidente do CORECON-SP, Haroldo da Silva, defendeu que o esforço de valorização da perícia precisa ir além das entidades representativas e alcançar formadores de opinião e instituições estratégicas.
Para ele, ampliar a compreensão sobre o papel dos peritos junto a futuros magistrados e profissionais do Direito pode contribuir para fortalecer a atividade no longo prazo. "Precisamos ampliar esse diálogo e bater juntos em outras portas, seja nas escolas de formação, nos cursos preparatórios para a magistratura ou em outras instituições estratégicas. Quando atuamos de forma integrada, aumentamos nossa capacidade de mostrar a relevância da perícia para a sociedade e para o próprio sistema de Justiça. Vamos trabalhar juntos."
Nesse sentido, o vice-presidente de Integridade, Ética e Disciplina do CRCSP, Wander Pinto, destacou o valor da cooperação institucional para o desenvolvimento da atividade. "A valorização da perícia passa necessariamente pela união institucional. Quando diferentes entidades se sentam à mesma mesa para compartilhar experiências, discutir desafios e construir soluções conjuntas, damos um passo importante para fortalecer a atividade pericial e ampliar seu reconhecimento perante a sociedade e o sistema de Justiça."
Brasília, o judiciário e a política
A importância da articulação institucional também apareceu de forma recorrente ao longo do debate. Para os participantes, parte dos desafios enfrentados pelos peritos depende de avanços regulatórios e administrativos que exigem interlocução direta com órgãos nacionais.
Ao abordar esse tema, José Vanderlei Masson dos Santos, presidente do Conselho Deliberativo da APEJESP e da FEBRAPAM, ressaltou o papel dos conselhos federais na construção dessas pontes.
Segundo ele, embora as associações e entidades estejam presentes em diferentes estados, muitas das mudanças reivindicadas pela categoria dependem de articulações realizadas em âmbito nacional. "Temos um trabalho importante sendo realizado nos estados, mas muitas das mudanças estruturais que buscamos dependem de articulação em Brasília. Precisamos fortalecer nossa representação institucional junto aos órgãos nacionais, especialmente ao CNJ, para que as decisões e diretrizes cheguem efetivamente à ponta. Se a orientação não vier dos níveis superiores, muitas vezes ela não se materializa na prática."
Na mesma linha, Haroldo da Silva reforçou que a defesa dos interesses da categoria exige uma atuação política permanente e organizada. Para ele, os conselhos profissionais precisam estreitar o relacionamento com parlamentares, gestores públicos e lideranças capazes de influenciar decisões relacionadas à perícia. "Os desafios que enfrentamos não serão resolvidos apenas com discussões técnicas. É preciso fazer política com P maiúsculo, no sentido mais legítimo da palavra: dialogar, construir pontes, aproximar lideranças e sensibilizar quem tem capacidade de influenciar melhorias para a categoria."
Ser ouvido e seguir aprendendo
A adaptação foi o ponto destacado pelo vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do CRCSP, Renato Prone Teixeira da Silva. "O ponto mais importante aqui é a adaptação", afirmou. Segundo ele, "a perícia, ela precisa se adaptar e a cada momento ela vai se adaptar mais ainda". Como a qualidade do laudo depende da classe pericial, seja para o juiz ou na atuação como assistente técnico, os profissionais precisam se atualizar e fazer as adaptações que surgem no dia a dia. Renato também ressaltou, ao final, a importância das instituições de ensino.
Além das questões institucionais, o painel abriu espaço para reflexões sobre os desafios enfrentados pelos profissionais na rotina da atividade pericial. A presidente do IBAPE-SP e representante do CREA-SP, Fabiana Albano Russo de Melo, chamou a atenção para a importância de ouvir quem vive diariamente as demandas da área. Segundo ela, muitas das dificuldades enfrentadas pelos peritos permanecem pouco conhecidas por gestores e tomadores de decisão.
Ela também ressaltou que a atuação profissional ocorre em ambientes cada vez mais multidisciplinares, exigindo habilidades que vão além do conhecimento técnico. "Muitas vezes, quem toma decisões não conhece as dores e os desafios enfrentados pelos peritos no dia a dia. Por isso, é fundamental que a categoria tenha voz e seja ouvida. Além disso, trabalhamos cada vez mais em ambientes multidisciplinares, convivendo com assistentes técnicos, advogados e outros profissionais, o que exige equilíbrio, respeito, sabedoria e paciência para lidar com diferentes perspectivas."
Outro aspecto amplamente defendido pelos participantes foi a necessidade de atualização constante. Ao falar sobre a evolução da profissão, a presidente da APEJESP, Suely Gualano Bossa Serrati, destacou que a busca pelo conhecimento é parte inseparável da atividade pericial e acompanha todas as etapas da carreira. "Cada processo traz uma realidade diferente e exige um aprofundamento específico. Por isso, costumo dizer que cada processo é uma pesquisa que temos de realizar. O perito precisa estudar continuamente, acompanhar as mudanças da sua área de atuação, buscar atualização constante e participar das atividades da categoria para entregar um trabalho técnico cada vez mais qualificado."
Durante a moderação do painel, Suely já havia ressaltado que os desafios discutidos não pertencem a uma única profissão. "A pluralidade de experiências reunida neste painel mostra que os desafios da perícia são compartilhados por diferentes áreas do conhecimento. O diálogo e a cooperação entre as instituições são fundamentais para construirmos soluções e avançarmos juntos", afirmou.
Escuta ativa e próximos passos
Ao encerrar o encontro, a presidente da APEJESP reforçou que o futuro da atividade depende diretamente do engajamento dos próprios profissionais. Em uma reflexão sobre o papel das entidades e de cada perito na construção do setor, Suely destacou que o fortalecimento da profissão é um processo coletivo e contínuo. "A história da perícia não é construída apenas pelas instituições. Ela é construída todos os dias pelos profissionais que atuam nos processos, produzem conhecimento e ajudam a fortalecer a credibilidade da atividade. Somos nós que escrevemos essa trajetória, e é justamente por isso que o futuro da perícia depende do nosso engajamento, da nossa união e da nossa capacidade de construir soluções coletivas."
Ela também lembrou que a proposta de reunir representantes de diferentes conselhos e entidades surgiu da necessidade de ampliar o diálogo entre segmentos que compartilham desafios semelhantes. Segundo a presidente, a iniciativa teve como principal objetivo promover a troca de experiências e a compreensão de diferentes perspectivas sobre a atividade pericial. "Nós temos a obrigação de conhecer o outro lado, compreender diferentes visões e ouvir quem vive realidades distintas dentro do ecossistema pericial. Só assim conseguimos identificar oportunidades, enfrentar desafios comuns e construir caminhos que beneficiem toda a categoria."
Ao fazer um balanço do encontro, a presidente destacou que o painel deve servir como ponto de partida para novas ações conjuntas. Ela reforçou a importância da participação dos presentes e do envio de sugestões para a construção de uma agenda compartilhada. "Estamos aqui para escutar. Mais do que apresentar propostas prontas, queremos compreender as necessidades, sugestões e preocupações dos profissionais. A escuta ativa é fundamental para que as decisões sejam construídas de forma colaborativa e realmente reflitam as demandas da categoria."
Como próximo passo, Suely anunciou a intenção de formar uma comissão com representantes das entidades participantes para aprofundar as propostas debatidas ao longo do evento e transformar as reflexões do encontro em ações concretas para o fortalecimento da perícia no Estado de São Paulo.
Pinto, parabenizou a APEJESP pela celebração dos seus 69 anos e destacou o papel da presidente da entidade na aproximação entre diferentes instituições do setor. Segundo ele, a determinação de Suely foi fundamental para que as entidades avançassem em pautas comuns e fortalecessem o diálogo em torno da valorização da atividade pericial.
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