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Saúde mental, desempenho e satisfação emocional

Sobre os limites que precisamos construir quando o trabalho ocupa espaço demais

Vivemos em uma época em que falar de estresse, esgotamento e saúde mental no trabalho se tornou quase inevitável. Prazos, cobranças e entregas fazem parte da vida profissional. Quando atendo profissionais que estão precisando tomar medicação para conseguir continuar trabalhando, com conflitos emocionais e alto nível de estresse, me ocorre a pergunta:   O que acontece quando o trabalho passa a ocupar espaço demais na vida?

 

Trabalhar, buscar bons resultados e sentir orgulho do que fazemos pode ser muito reforçador. O problema aparece quando nossa satisfação passa a depender quase exclusivamente da aprovação externa: do chefe, do cliente, dos resultados, dos números ou da próxima conquista.

 

Ter critérios próprios para reconhecer um trabalho como bom não significa ignorar o que o ambiente nos mostra. Significa não deixar que a régua do nosso desempenho seja definida apenas pelos outros. Afinal, se sempre existe uma nova meta, uma nova demanda ou alguém para superar, quando podemos dizer: “isso foi suficiente”?

 

Existe também uma pergunta importante: Quantas fontes de satisfação existem na nossa vida? Cultivar outros papéis, como amigos, família, esporte, viagens, hobbies, leitura, natureza ou simplesmente momentos de descanso. Não como mais uma lista de tarefas para cumprir, mas como espaços que não precisam produzir resultados.

 

Quando concentramos grande parte das nossas fontes de satisfação em uma única área, ficamos mais vulneráveis ao mal-estar emocional quando essa área vai mal.

 

Costumo falar para as pessoas, que não podemos equilibrar a nossa mesa em um pé só, quanto mais pés tiver a nossa mesa, mais chance de equilíbrio ela terá quando alguém esbarrar em um dos pés, e acredite, haverá um dia em que vamos receber uma crítica ou não estamos dispostos e vamos ficar mal por não estar 100%. Sendo assim, o trabalho pode ser uma fonte importante de reconhecimento e realização, mas não pode ser a única. Uma vida que não cabe inteira no currículo talvez seja uma forma importante de proteção do equilíbrio e da saúde mental.

 

Isso se tornou ainda mais complexo com o trabalho remoto. O escritório entrou em casa — e, junto com ele, vieram as mensagens no celular, os e-mails à noite e a sensação de que estamos sempre disponíveis ou vigiados. A espontaneidade vai sendo sugada pela percepção de estar devendo algo.

 

Antes, fechar a porta do escritório ajudava a sinalizar que o expediente havia terminado. Hoje, muitas vezes, fechamos o notebook e continuamos trabalhando por dentro.


Quando as fronteiras entre os contextos ficam pouco definidas, torna-se mais fácil que o comportamento relacionado ao trabalho se espalhe para outros momentos da vida. E talvez a pergunta mais simples seja justamente a mais difícil:

 

Quando termina o expediente?

 

Não se trata de trabalhar menos a qualquer custo, nem de abandonar a ambição profissional. Trata-se de perceber quando uma escolha deixou de ser uma escolha e passou a ser uma exigência da qual parece impossível sair.

 

Talvez a saúde mental no trabalho também tenha a ver com recuperar algumas fronteiras: e uma delas, por mais simples que pareça seja a fronteira física, mesmo trabalhando remoto, conseguir manter o ambiente de trabalho longe dos olhos em momento em que não se está trabalhando. Isso significa guardar o computador, reservar um espaço para trabalho que não seja o mesmo ambiente em que se dorme ou outras soluções físicas que ajudam nessa separação e não acionam a memória de trabalho o tempo todo.

 

Na minha prática clínica percebo pessoas em burnout por excesso de tarefas e projetos rodando com a mesma prioridade ao mesmo tempo, ou porque perderam o senso de limite daquilo que é possível fazer e daquilo que é a exigência externa.  E essa situação fica difícil em épocas em que a inteligência artificial dá respostas em segundos. Isso pode criar uma expectativa de que deveríamos responder com a mesma velocidade e precisão.

 

O ambiente externo vai perdendo a sensibilidade e cabe a nós retomar um bom senso e nos perguntar:   Qual a minha intenção hoje no trabalho, o que dá para fazer? O que é responsabilidade minha? O que é um bom resultado para mim? O que posso deixar para amanhã? E que outras coisas, além do trabalho, também merecem espaço na minha vida?

 

A Análise do Comportamento nos ajuda a olhar para essas questões considerando as relações entre comportamento, ambiente e consequências, em vez de tratar o sofrimento simplesmente como uma característica da pessoa. E isso permite uma reflexão importante: talvez não seja necessário eliminar as exigências da vida profissional, mas ampliar os lugares onde encontramos satisfação e construir relações mais equilibradas com aquilo que fazemos. Essa prática por si só já nos obriga a ter mais equilíbrio.

 

Porque o trabalho pode ser uma parte muito importante da vida. Mas não precisa ser a vida inteira.

 

Artigo escrito por Márcia A. Costa, psicóloga especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva pela USP, pós-graduada em Psicossomática pela FACIS/IBEHE e pós-graduada em Liderança e Autoliderança pelo HC/FMUSP e supervisora na MAC Desenvolvimento Humano - Consultoria em Liderança, Escolhas Profissionais e Planejamento de Carreira.




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