Perícia amplia atuação em disputas sobre ITBI e inteligência artificial redefine desafios da contabilidade, diz presidente da APC
O avanço das tecnologias digitais, especialmente da inteligência artificial (IA), vem transformando a rotina dos profissionais da contabilidade e da perícia. Ao mesmo tempo, novas demandas ligadas ao mercado imobiliário e à avaliação patrimonial têm ampliado o espaço de atuação dos especialistas. Para Alexandre Sanches Garcia, presidente da Academia Paulista de Contabilidade (APC), a perícia se tornou um instrumento cada vez mais relevante não apenas em processos judiciais, mas também em questões administrativas relacionadas à tributação imobiliária. "As perícias têm cada vez se mostrado mais necessárias, não somente nas questões judiciais, também como nas questões relativas ao valor atribuído pelas prefeituras no momento do recolhimento do ITBI", afirma.
Segundo ele, tem sido recorrente a atribuição, por parte das administrações municipais, de valores que não refletem o preço efetivo dos imóveis. "Tem sido constatado um grande número de valores atribuídos pelas prefeituras à propriedade imobiliária que não representam o valor real do imóvel, sempre muito acima daquilo que vale."
Nesse contexto, o trabalho técnico de avaliação ganha relevância. "Aí entra o corretor de imóveis para a elaboração do parecer técnico e avaliação mercadológica para poder fazer o recurso administrativo, fazendo com que o valor chegue no valor real para que o ITBI possa ser recolhido dentro do valor da propriedade e não dentro daquele valor fictício que tem sido apresentado pelas prefeituras", diz.
Para ele, esse movimento reforça a importância crescente da especialidade. "A perícia e as avaliações no mercado imobiliário têm sido de uma importância fundamental."
Academia prepara lançamento do sétimo livro em dez anos
Entre as prioridades da Academia Paulista de Contabilidade para o segundo semestre, a principal iniciativa é a publicação de uma nova obra técnica. De acordo com Garcia, a entidade chega ao sétimo livro lançado ao longo da última década. "A academia, nos últimos dez anos, lançou seis livros e a gente está indo agora para o sétimo livro.”
A publicação abordará assuntos relacionados à contabilidade, auditoria e perícia, além de temas que impactam diretamente a atuação dos profissionais da área. São livros técnicos dos assuntos da área de contabilidade, incluindo a auditoria, perícia. Temas que envolvem os pronunciamentos de contabilidade, de auditoria, os pronunciamentos técnicos, profissionais, e temas gerais da área de negócios que impactam os trabalhos da contabilidade, como, por exemplo, reforma tributária, uso de tecnologias, modelos de negócios, novos modelos de negócios das empresas.
Na avaliação de Garcia, o foco está naquilo que influencia diretamente a atividade profissional. "Ou seja, o que afeta o trabalho, o desempenho do profissional da contabilidade no dia a dia. O projeto reúne diversos membros da Academia responsáveis pela elaboração dos capítulos. São vários acadêmicos envolvidos que são os autores dos capítulos do livro."
A obra foi planejada para ter aproximadamente 300 páginas e já se encontra em fase avançada de preparação. É um livro planejado para 300 páginas. Já está num estágio bem avançado, já praticamente todo escrito, já foram entregues os capítulos, está em fase de revisão para encaminhamento para editora.
A expectativa é produzir dois mil exemplares. O presidente ressalta, porém, que a publicação terá caráter exclusivamente institucional. "É um livro que a gente pretende ter dois mil exemplares. E lembrando que esse livro não é vendável, ele é totalmente gratuito, disponível em forma de e-book no site da Academia e também no site do CRC de São Paulo."
As versões impressas serão distribuídas em eventos do Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo (CRCSP), especialmente na próxima Convenção Estadual de Contabilidade. Essas versões impressas são distribuídas nos eventos do CRC, principalmente na Convenção Estadual de Contabilidade, que acontecerá somente no ano que vem. Além da publicação, a Academia mantém uma agenda permanente de disseminação de conhecimento. "As outras ações são a realização de webinários mensalmente.
Desde o início do ano, os encontros vêm sendo utilizados para antecipar parte das discussões presentes na nova obra. "Nesses webinários, desde o início do ano, a gente tem colocado os autores dos capítulos do livro para trabalhar nos webinários, na divulgação até mesmo do que está sendo escrito", pontua o presidente.
A instituição também tem participado de congressos acadêmicos. Garcia cita como exemplo o encontro realizado recentemente na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). "Na semana passada teve a realização dos maiores congressos acadêmicos de contabilidade, que anualmente é realizado dentro das dependências da USP, especificamente na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP."
Segundo ele, o evento reuniu pesquisadores, professores e profissionais durante três dias de atividades. "Foram três dias intensos de muitos debates, de apresentações de trabalhos, artigos acadêmicos, e muitos membros da academia estavam lá, alguns por meio das suas instituições de ensino, outros não, mas estavam lá para fazer apresentações de artigos ou moderar mesas, discussões."
Inteligência artificial exige nova qualificação dos peritos
Ao avaliar os desafios enfrentados pelos profissionais que atuam com perícia contábil, Garcia afirma que o tema está diretamente relacionado ao impacto da inteligência artificial. "A resposta para essa questão está muito atrelada à próxima questão, que envolve, não tem como fugir, o uso de ferramentas de inteligência artificial."
Segundo ele, trata-se de uma transformação que alcança praticamente todas as profissões. "Não só nas áreas da contabilidade, mas em áreas de todas as profissões, seja do direito, da medicina, que realmente é um impacto bem profundo. E agora no trabalho de perícia também."
Embora a tecnologia tenha historicamente influenciado a atividade contábil, o impacto atual ocorre de forma mais abrangente devido à capacidade das novas ferramentas de processar grandes volumes de informação. “A tecnologia sempre impactou bastante os trabalhos da contabilidade, seja no registro das transações econômicas das empresas, seja na forma de fazer os relatórios", afirma o presidente.
No caso específico da perícia, o potencial é ainda maior. Ele cita, que como perícia requer bastante uso de muitos dados, geralmente dados financeiros, quantitativos, de longo período de tempo, as ferramentas já propiciam um trabalho de análise muito grande, num tempo de resposta também muito rápido. Diante desse cenário, acredita que a qualificação torna-se um fator central para os profissionais. "Precisa ter uma nova capacitação para os profissionais de perícia e utilizar essas ferramentas para a eficiência do próprio trabalho."
Para Garcia, o principal desafio atual é justamente a capacidade de utilizar os recursos tecnológicos de forma adequada. "Esse eu acho que é um dos grandes desafios para a área de perícia, realmente é saber utilizar da melhor forma os recursos que a tecnologia tem aí à disposição para os profissionais."
Contabilidade sempre evoluiu por meio da tecnologia
Na avaliação do presidente da APC, a discussão sobre inteligência artificial deve ser analisada sob uma perspectiva histórica. Segundo ele, a própria contabilidade nasceu como uma tecnologia. "Eu tenho falado nas oportunidades que a gente tem de apresentações, seja em congressos ou até mesmo nos webinários da academia, para reforçar que contabilidade é tecnologia."
Garcia destaca a origem do próprio conceito. "A semântica da palavra tecnologia, a origem da palavra, está ligada ao uso, ao emprego e ao estudo de técnicas. E a contabilidade nada mais é do que uma tecnologia, ela surgiu assim."
Como exemplo, ele lembra a publicação da Summa Arithmetica, de Luca Pacioli, em 1494. "Quando o Luca Pacioli fez o livro da Summa Aritmética, e lá dentro do livro tinha um capítulo falando sobre o método das partidas dobradas."
Segundo ele, o método representou uma inovação fundamental para a gestão dos negócios. "O que foi o método das partidas dobradas? Foi uma técnica utilizada que facilitaria a organização, o controle e o registro de transações econômicas das empresas."
Desde então, afirma, os princípios da contabilidade permaneceram os mesmos, enquanto as ferramentas evoluíram. "De lá para cá, a contabilidade, conforme iam surgindo novas ferramentas tecnológicas, esse conceito, o princípio da contabilidade não mudou. Ele foi só se adaptando ao que as ferramentas e tecnologias novas disponibilizavam para o profissional melhor desempenhar o seu trabalho e oferecer trabalhos de mais alta qualidade em tempo recorde de execução dos trabalhos."
Nesse sentido, a inteligência artificial deve ser vista como mais uma etapa desse processo. A inteligência artificial também deve ser reconhecida como mais uma das ferramentas oriundas de tecnologia e que vai ajudar sobremaneira o trabalho da contabilidade. Garcia recorda que movimento semelhante ocorreu com a disseminação dos sistemas integrados de gestão empresarial, os chamados ERPs (Enterprise Resource Planning). "Já foi assim, não tão recentemente, mas com o surgimento dos sistemas integrados, chamados ERPs, os sistemas de gestão."
Segundo ele, a integração dos sistemas automatizou diversas rotinas contábeis. "Muitas transações econômicas já estavam automaticamente sendo contabilizadas por meio dos módulos de um sistema, módulos de vendas, módulos de financeiro e assim por diante." O processo passou a ocorrer por parametrização dos sistemas. "Por meio de parâmetros dentro do sistema, já saíam de forma automática os lançamentos, por exemplo, os lançamentos de débito e crédito da contabilidade."
Agora, afirma o presidente, a inteligência artificial amplia ainda mais essa capacidade. "A IA vem impulsionar mais isso de uma maneira talvez não só de rapidez, mas de qualidade." O avanço ocorre tanto na análise de dados quantitativos quanto na elaboração de conteúdo. "Não só de dados quantitativos, mas também elementos textuais, na possibilidade de melhor elaboração e criação de textos, relatórios."
Para Garcia, a trajetória da profissão demonstra que a tecnologia sempre funcionou como um instrumento para aperfeiçoar seu papel principal. "Ao longo dos seus mais de 500 anos de existência, a contabilidade sempre se utilizou da tecnologia para aperfeiçoar a função da contabilidade, que é esse trabalho de controle do patrimônio, de prestar melhor informação aos usuários da contabilidade."
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