Presidente do IPC acredita que transformação digital redefine o papel estratégico da contabilidade

A contabilidade brasileira passa por uma das mais profundas
transformações de sua história, impulsionada pela digitalização e por mudanças
regulatórias. Em entrevista, o presidente do Instituto dos Profissionais da
Contabilidade (IPC), Luiz Fernando Nobrega, analisa como a profissão tem se
reposicionado, os desafios enfrentados pelos profissionais e o impacto de
iniciativas como o programa Conecta e o Hub IPC.
Segundo Nobrega, a evolução recente da área contábil elevou
o nível de atuação dos profissionais dentro das organizações. “A contabilidade
brasileira viveu, nos últimos quinze anos, a transição mais profunda da sua
história. As mudanças todas das obrigações acessórias como o SPED, o eSocial, a
EFD-Reinf, o advento da NF-e e, mais recentemente, a Reforma Tributária. Todas
essas mudanças forçaram a profissão para cima na cadeia de valor. O que antes
era o produto (apurar, escriturar, transmitir) virou commodity automatizável. O
novo produto é a interpretação: o contador como conselheiro de decisão,
guardião da conformidade e arquiteto de eficiência tributária e financeira.”
Apesar dos avanços tecnológicos, o principal desafio da
profissão não está nas ferramentas disponíveis, mas na adaptação dos próprios
profissionais. Para o presidente do IPC, a transformação exige uma mudança
cultural significativa. “O maior desafio não é tecnológico, é humano e
principalmente cultural. A tecnologia está disponível e barateando todos os
dias; o gargalo é a velocidade de requalificação do profissional e a inércia
dos modelos de negócio dos escritórios.”
Ele destaca ainda a dificuldade dos contadores em conciliar
a rotina operacional com a necessidade de atualização constante. “Um desafio
crítico é a requalificação em ritmo incompatível com a rotina (o contador é
sobrecarregado por obrigações burocráticas) e não encontra tempo para aprender
análise de dados, IA aplicada e consultoria. É o paradoxo de quem precisa parar
de remar para aprender a usar o motor, mas não pode parar de remar.”
Outro ponto sensível, na visão de Nobrega, é o impacto da
automação sobre a precificação dos serviços tradicionais. “Outro ponto a
considerar é histórico, a precificação de serviços comoditizados, quando a
automação derruba o custo da escrituração, o cliente questiona o honorário.
Quem não migrou para serviços de valor agregado entra em guerra de preço e
perde margem”.
Nesse contexto, o IPC lançou o programa Conecta, voltado à
qualificação profissional alinhada às demandas do mercado. De acordo com o
presidente, a iniciativa surgiu da necessidade de aproximar formação e prática.
“O Conecta nasceu de um diagnóstico simples: Nem sempre o que o mercado precisa
é o que a academia e as entidades estão ensinando. Assim a premissa foi ouvir p
mercado e os skills que precisam e buscar oferecer uma qualificação na medida
certa. E depois consolidar isso oferecendo um banco de talentos a qual os
profissionais terão as capacidades que o mercado quer e o mercado saberá onde
encontrá-las.”
Complementando essa proposta, o Hub IPC funciona como uma
plataforma de conexão entre profissionais e empresas, promovendo soluções para
o dia a dia da contabilidade. “O Hub IPC é a tradução prática onde o
profissional encontra soluções e serviços para o seu dia a dia e as empresas
têm o espaço assertivo de onde oferecer. Além disso o HUB tem uma premissa
muito comum à classe de conectar serviços demandados pelos clientes e o HUB
visa ainda remunerar o contador por essa intermediação”, explica ele.
As duas iniciativas fazem parte de uma estratégia integrada
para fortalecer a atuação dos contadores no cenário atual. “Conecta e Hub IPC
não são dois projetos paralelos, são duas metades de um mesmo movimento
estratégico, que se sustentam mutuamente. A forma mais clara de explicar a
articulação é por uma divisão de função: o Conecta capacita e conecta; o Hub
monetiza e entrega oportunidade. Uma forma o profissional; o outro dá a ele
onde aplicar essa formação e gerar resultado”, finaliza Nobrega.
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