Perícia contábil: desafios, soluções e o papel da tecnologia na formação de peritos

A capacitação e formação de peritos contábeis no Brasil é um tema que exige atenção contínua e integração entre academia, prática profissional e órgãos reguladores. Essa foi a análise de Ivam Ricardo Peleias, empresário contábil, perito e professor dos programas de mestrado da FECAP, em entrevista a Newsletter APEJESP.
Desafios permanentes na formação
Segundo Peleias, os obstáculos na formação são muitos e permanentes.
"Sob a ótica acadêmica, iniciam na oferta da disciplina Perícia Contábil e Arbitragem nos cursos de Graduação em Ciências Contábeis. Passam pela oferta de cursos de pós-graduação (Lato Sensu e MBA) em Perícia Contábil. Os Mestrados e Doutorados Brasileiros em Ciências Contábeis podem e devem produzir dissertações, teses, bons artigos e livros sobre Perícia Contábil."
No campo profissional, a dificuldade está em atrair e reter talentos:
"É preciso atrair e reter talentos para a função pericial. Esta atração começa com o maior e melhor conhecimento da função pericial, que não é um subproduto do Poder Judiciário. A atração de talentos recém-formados requer a oferta de boas condições profissionais (local de trabalho, remuneração, benefícios e equipamentos, sem a eles se limitar), acompanhada de programas de integração, treinamento e formação/capacitação profissional no exercício da função; na verdade um grande on the job training. A atração de talentos com experiência profissional passa pelo fato de que Perícia Contábil pode ser uma alternativa de atuação profissional, a ser exercida no formato home office ou como empresa de serviços contábeis."
Ele também destacou o papel das entidades de classe:
"É de louvar e manter a atuação e os esforços pioneiros no Brasil que vêm sendo empreendidos pelas entidades congraçadas da Contabilidade no Estado de São Paulo, em especial a APEJESP, CRCSP e SindCont-SP, que vêm promovendo atividades presenciais e on-line voltadas a capacitação, reciclagem, atração e retenção de talentos para a atividade pericial contábil. É preciso manter o que vem sendo feito, com o radar sempre ligado para as novas e intermináveis necessidades."
Portais judiciais como instrumentos estratégicos
Peleias defendeu que os portais dos auxiliares da justiça podem evoluir para se tornarem ferramentas de gestão e melhoria da função pericial:
"Além de serem um banco de dados que pode ser consultado / usado pelos stakeholders do Poder Judiciário (Juízes, servidores, advogados e partes) e demais interessados, os portais podem e devem desenvolver indicadores de performance da função pericial, tais como quantidade de nomeações por tipo / natureza de processo, prazo médio de realização de perícias e juntada de laudos, quantidade de esclarecimentos prestados, nomeações região judiciária, foros e varas, dentre outros. As informações necessárias a esses indicadores podem ser obtidas nos processos judiciais eletrônicos. A tecnologia da informação e a inteligência artificial, combinadas de forma competente, podem fornecer esses indicadores."
Para Peleias, a formação dos peritos deve ir além da técnica contábil:
"Além do que informei ao responder à questão 1, é preciso treinar, capacitar e reciclar Peritos e Peritas em habilidades, competências e atitudes para leitura, redação, gestão de projetos, administração do tempo, técnicas de apresentação, relações interpessoais, dentre outros. O processo de mudança é permanente, a prova disso é que estamos em momento de calorosas discussões e debates sobre o uso da inteligência artificial, a qual, se bem conhecida e bem usada, pode ser uma aliada útil à atividade pericial contábil. É preciso dizer que a inteligência artificial não substituirá a inteligência humana, mas a ela sempre deve se subordinar."
Ele citou como exemplo o Fórum Paulista de Perícia Contábil, promovido pelo CRCSP e APEJESP:
"Outro exemplo de recursos e programas de capacitação eficazes é o Fórum Paulista de Perícia Contábil, promovido pelo CRCSP e APEJESP, cuja edição de 2025 ocorreu em 16 de dezembro. Foram temas variados (inteligência artificial, empreendedorismo, como evitar erros comuns, perícia tributária, arbitragem como alternativa profissional). Nosso radar para a formação, capacitação, reciclagem, atração e retenção de talentos para a função pericial é de caráter permanente."
Ele reforçou a essência da profissão:
"É preciso lembrar que Peritos e Peritas são pessoas que sabem. Saber é uma conjugação de fatores (formação acadêmica; experiência profissional, necessidade de capacitação, atualização e reciclagem; domínio metodológico; experiências reais vividas; sagacidade; ceticismo; a dúvida metódica por princípio). Não se pode esquecer que Peritos e Peritas são nomeados no Judiciário para resolver problemas complexos. Nossa missão é oferecer soluções para problemas complexos. Não raro Peritos e Peritas se defrontam com situações inéditas ou pouco exploradas. Nessas condições, defendo e divulgo a máxima: Perito é quem sabe. Quando o Perito não sabe, ele precisa saber como saber. Simples assim."
Por fim, Peleias defendeu maior colaboração entre instituições de ensino e órgãos judiciais:
"Esta colaboração passa pelo reconhecimento e sua necessidade pelas instituições de ensino, órgãos judiciários e órgãos de classe. Dado este primeiro passo, é preciso que as pessoas se sentem à mesa, com pautas definidas relativas a alguns dos temas que aqui apresento, definam planos de ação e os executem, avaliando sempre os resultados. Há iniciativas neste sentido; porém, pouco se fez até o momento. É uma jornada longa e, a meu ver, interminável, pois como eu já disse, a mudança é permanente.
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